A morte da elegância: Amigos, familiares e admiradores estiveram em velório de Rui Spohr


Rui Spohr faleceu na manhã desta terça-feira (30), em Porto Alegre, aos 89 anos, vítima de broncopneumonia. O estilista tinha Parkinson, distúrbio do sistema nervoso central que afeta os movimentos. A moda gaúcha perdeu um grande ícone da moda gaúcha. O estilista, que em 2016 completou 60 anos de carreira, teve uma colaboração fundamental na alta costura e na história da moda no Rio Grande do Sul.

Entre os muitos vestidos feitos por ele, ao longo de todos estes anos, destacam-se os de casamento das misses Maria Ieda Vargas, Miss Universo em 1963, e de Deise Nunes Ferst, Miss Brasil em 1986, símbolos da beleza nacional. Suas roupas eram impecáveis. Alguns o comparam a Christian Dior, por exemplo. Yves Saint Laurent e Karl Lagerfeld foram seus contemporâneos, estudaram na mesma escola, a Chambre Syndicale de la Haute Couture Parisienne Como lema, ele tinha “a sofisticada originalidade do simples”. E era assim que trabalhava, era assim que era Rui. Simples, original.

Pelo velório, realizado no Theatro São Pedro, passaram amigos, familiares e admiradores do trabalho de Rui. Além da viúva, Dóris Spohr, e da neta Antônia, conversei com a estilista Solaine Piccoli, fã de Rui há mais de 40 anos. “Ele sempre foi uma inspiração para mim. Sua roupa sempre foi impecável, sua moda era atemporal. Seus vestidos eram verdadeiras obras de arte. O exemplo que ele deixou para as novas gerações é imensurável”, disse.

Deise Nunes Ferst (c) e viúva Dóris Spohr (d) do estilista gaúcho Rui Spohr. 

Deise Nunes também estava presente. “Com certeza é um momento muito triste para a moda gaúcha, que fica órfã. Ele foi o primeiro brasileiro a fazer um curso em Paris, não deve ter sido nada fácil. Ele era muito detalhista, uma pessoa muito agradável. O luxo do luxo”, afirmou.

Tive a oportunidade de fazer quatro longas entrevistas com Rui. Abaixo reproduzo a última, de 2016, publicada na Revista Onne & Only. Nesta entrevista ele me contou um pouco dos bastidores e das histórias mais interessantes dos vestidos que marcaram a sua trajetória, marcada pelo charme e pela sofisticação. Ele também falou sobre seu processo de criação dos vestidos, da trajetória da marca e de como via a moda gaúcha e brasileira.

A viagem de navio

“O que acho mais interessante da minha história é a garra que temos quando jovens. Aos 20 anos eu já gostava de moda e já estava fazendo moda, desenhava. E queria ir adiante: Rio de Janeiro, São Paulo, Paris. Mas não conhecia nada fora daqui, não sabia o que havia. Eu lia nas revistas, sabia que existiam escolas de moda no exterior e queria estudar nelas. Antes de ir para Paris, meu pai faleceu e comuniquei minha mãe e meus irmãos mais velhos que iria estudar na capital francesa e que usaria minha parte da herança. Eles concordaram e me deram força. Foi então que embarquei pela primeira vez para Paris. Fui de navio, e a viagem durou 11 dias. Não se falava em ir de avião, só em ir de navio, e a viagem era ótima. Foram 11 dias maravilhosos, me diverti muito”.

Em Paris pela primeira vez

“Saindo do Rio de Janeiro, chegamos em Cannes (França) e, ainda no navio, precisávamos avisar o que estávamos fazendo em Paris. No grupo havia muitas meninas com bolsa para estudar francês, e fiz amizade com elas. Pegamos um trem para Paris, à noite, e quando chegamos na cidade, por volta das 6 horas, me despedi dos colegas de navio e de repente estava sozinho, em uma das estações em Paris, com uma mala e uma sacola. Tive muita coragem, a gente aos 22 anos tem tesão para fazer essas coisas. E eu fui, e quando parecia que tudo ia dar errado, deu tudo certo. Mas eu nunca desanimei. Fui para ficar oito meses e fiquei três anos sem voltar ao Brasil. Já tinha perdido a vontade de voltar, há muita gente boa trabalhando em Paris”.

A carta de apresentação

“Assim que cheguei em Paris fui procurar um amigo de um amigo brasileiro. Levei uma carta de apresentação dele. Passava pouco das 6 horas, estava escuro. Peguei minha mala e fui ao hotel, sem conhecer nada. Tinha apenas o nome da rua. Ao chegar, fui bem recebido. Deixei tudo lá e fui procurar a pessoa que poderia me ajudar. Era por volta das 8 horas, chovia muito, era outubro. Estava frio, e fui caminhando. Mas eu tinha tanto entusiasmo, tanta garra, tanta coragem. Hoje não faria mais, e nem com 30, 40 anos. Então fui procurar o endereço. Era de um brasileiro de Flores da Cunha (RS), que estava morando em Paris. E nosso amigo em comum morava em Porto Alegre. Bati no hotel Saint Piérre, e o homem custou para retornar. Depois de um tempo me atendeu, perguntou o que eu estava fazendo. Disse que estava ali para estudar moda. “Estudar o quê?”, perguntou novamente. “Moda”, respondi. “Ah, isso não existe. Volta daqui a quatro ou cinco horas que vejo o que posso fazer, caso contrário tu voltas para o Brasil”. E esperei. Ele então me recebeu, disse que conhecia alguém que trabalhava em um escritório de importação e exportação do Brasil e que, por sua vez, conhecia todo mundo. Mas alguns dias depois ele se mudou e perdi o único contato que tinha em Paris. Mesmo assim escrevi uma carta para minha mãe dizendo que estava tudo bem. Naquele tempo só havia comunicação por navio, a carta levava cerca de 15 dias para chegar em Porto Alegre”.

O encontro

“Ao chegar ao Correio para enviar a carta, aflito por não saber o que fazer, um homem me parou e perguntou se eu era brasileiro. Respondi que sim, que estava em Paris para estudar moda. E ele me disse que não existia moda, mas que me daria o endereço de um homem muito conhecido e que ajudava todo mundo. “Pega o endereço dele, é este aqui”, disse. Quando me virei, o homem desapareceu. Uma coisa realmente fantástica. Foi um anjo da guarda. Acho que este acontecimento foi a chave da minha chegada em Paris. E, realmente, depois de uns dois ou três dias, eu já estava na escola, alegre e feliz. E então que falo, fui para ficar oito meses, um ano letivo, de outubro a junho, e fiquei três anos. Foi ótimo, Paris é maravilhosa, seus ateliers de arte, os museus. Mas depois dos três anos, percebi que poderia fazer a diferença voltando ao Brasil. E então retornei a Porto Alegre”.

Os contemporâneos

“Yves Saint Laurent e Karl Lagerfeld estudaram na mesma escola que eu, a Chambre Syndicale de la Haute Couture Parisienne, dois anos depois de mim. Era a única escola de moda que existia realmente. Eles venceram um concurso de criação de vestidos e se tornaram famosos. E foi isso que aconteceu. Quer dizer, hoje, eu estou com mais de 80 anos, Karl tem quase a mesma idade e também segue trabalhando. Outro designer famoso ainda na ativa é Giorgio Armani. Às vezes, me chateio com indiretas sobre seguir trabalhando. Não menosprezem as pessoas que têm mais idade, nós chegamos até aqui e realizamos muito. Vocês estão apenas no começo. Mas desejo muita sorte a todos, porque é maravilhoso fazer moda”.

A moda

“É uma coisa fantástica fazer moda, lidar com coisas bonitas, cores, luzes e efeitos. Isso enche a alma da gente. E ainda digo a todos os estudantes de moda que sigam realmente procurando fazer bons estágios, onde realmente aprendam, mesmo que na marra. De uma maneira geral, é difícil se manter na profissão, mas é possível e muito gratificante”.

A hora de parar

“Estou numa idade em que, às vezes, me pergunto se já está na hora de parar. Será que tenho o suficiente para sobreviver nos anos em que ainda vou viver? Será que ainda posso ser útil? Mas a família e amigos me dizem para continuar. Meu coração e minha garra são os mesmos. E se me perguntam qual foi o momento melhor da minha vida digo que foi Paris. E o segundo mais importante na minha vida é a minha mulher, Dóris. Devo tudo à garra dela, à vivência dela, ao nosso amor e à nossa vida. A Dóris é a grande responsável de eu estar aqui até o momento”.

Estilo

“Estilo é o teu jeito de ser. Estilo é você, a maneira que se expressa. Estilo é o que tu pensas, o que tu falas. Estilo, dentro da moda, dentro da pintura, dentro das artes, é a tua imagem. Estilo é a maneira que tu te vestes. Isto é estilo. Estilo é a personalidade, é a maneira de ver e de ser, no cotidiano. E continuar com esse estilo evoluindo através dos anos. É preciso criar o estilo próprio, adaptado, e saber da moda como um todo. E nesse todo deve haver o teu espaço, o teu estilo, a tua verdade. Isso que é importante”.



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