Brasileiros retidos na Itália vão à Alemanha para voltar para casa – Notícias




Brasileiros que estavam retidos na Itália desde o início da pandemia do novo coronavírus estão viajando para a Alemanha para conseguirem voltar. Um grupo de seis deles desembarcou no Aeroporto Internacional de Guarulhos, na Grande São Paulo nesta quinta-feira (23). A jornada começou na terça-feira (21) e passou por Roma e Frankfurt antes da tão esperada chegada ao Brasil.


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A brasileira Beatriz Campilongo, de 26 anos, fez parte do grupo. Ela estava tentando deixar a cidade de Lecce, no sul da Itália, desde o dia 25 de março. Com o próprio dinheiro, comprou uma passagem da Lufthansa, com embarque em Frankfurt. 



Passo a passo



O caminho começou a ser percorrido na manhã de terça, quando pegou um trem em Lecce com destino a Roma. No vagão vazio, fez as contas do quanto tinha gastado após enfrentar uma sequência de voos cancelados ao tentar retornar.


“Tive mais de R$ 10 mil bloqueados em passagem que eu tinha comprado antes. Se cancelassem esse aí [o voo saindo de Frankfurt], já iam ser mais de R$ 15 mil. Teria que ficar aqui pra sempre. Não ia ter dinheiro pra ir embora nunca mais. Preciso até desse dinheiro, porque todas as minhas reservas financeiras estão em passagens aéreas”, desabafa.


Ao chegar em Roma, desembarcou no terminal de trem e estranhou ver os corredores, sempre movimentados, com pouquíssima circulação. “Muito triste. Normalmente é um formigueiro, nem dá pra andar direito”, diz.





Do terminal, seguiu para um hotel, onde passou a noite. Na manhã seguinte, de quarta-feira (22), se dirigiu ao aeroporto internacional para pegar um voo rumo a Frankfurt, acompanhada de outros cinco brasileiros.


“Em Roma, só no aeroporto, a gente foi parado três vezes para dizer o porquê de estar indo embora. Muitas pessoas com cidadania italiana eles não estão deixando embarcar”, conta. Conseguiu partir rumo a Frankfurt. Na decolagem, chorou emocionada.


Ao desembarcar no aeroporto de Frankfurt, veio o espanto. Havia poucos aviões no pátio e pouca gente pelos corredores. As raras pessoas que via, usavam máscaras. “Estava tudo morto. Parecia um aeroporto fantasma, o cenário do fim do mundo”, diz. Ainda havia o risco de enfrentar o cancelamento do último voo, depois de todo o esforço. Mas o plano deu certo. Assim com em Roma, passaram por medição de temperatura e, em seguida, conseguiram embarcar. Quando a aeronave partiu, Beatriz chorou mais uma vez. « Não estava acreditando que estava finalmente indo embora. »





O avião tinha dois andares e os passageiros foram acomodados com uma poltrona de distância. Todos receberam uma garrafa de um litro de água. Não houve distribuição de outras bebidas, além de café ou chá servidos de manhã. « No avião, tinha gente de várias nacionalidades da América do Sul, mas diria que 90% do era de brasileiros, que estavam nas mais diferentes cidades da Europa. Muita gente vindo da Espanha e da França. A impressão que tive é que Frankfurt virou o centro de onde saem os voos pra São Paulo », avalia. 


A chegada finalmente aconteceu às 4h50 desta quinta-feira. Na saída do desembarque, viu os pais, mas nem cumprimentou. Apenas pegou a chave do carro e da casa de praia rapidamente, com o cuidado de não encostar. De Guarulhos, seguiu para Bertioga, no litoral norte, onde ficará isolada pelos próximos 15 dias sem sair para nada. Ao pensar no que passou, as lágrimas voltam. « Já chorei muito. Me emociono mesmo de falar que não foi fácil. Fico contente que tenha dado certo mesmo que eu tenha vindo sem nenhuma garantia se ia conseguir ou não. Tentei a sorte e tive a sorte ». 


Outros 15 brasileiros também tiveram essa sorte e já haviam conseguido voltar para casa no final de semana, antes mesmo da viagem de Beatriz. A coordenadora pedagógica Nayara Cerqueira, de 34 anos, é uma dessas pessoas. Uma decisão judicial determinou que a companhia aérea em que havia comprado a passagem de volta encaixasse ela em um voo da Lufthansa.


Acompanhada da mãe e da filha, deixou a casa da irmã em Formia e seguiu para a Alemanha. Ainda passou pelas cidades de Guarulhos e Salvador até enfim aterrissar no estado de Sergipe. Em casa, finalmente conseguiu descansar por 12 horas após uma maratona de viagem de 56 horas.





“Estou muito aliviada, a gente está muito feliz de estar em casa. A sensação é de missão cumprida. A gente chegou em paz, todo mundo com saúde, graças a Deus”, diz. A diferença na movimentação nas ruas em comparação com o que via fora do Brasil assustou. “Confesso que tomei um susto. Em São Paulo, o aeroporto estava muito cheio. E agora aqui no meu estado,  quando cheguei, as ruas estão totalmente diferentes do que estava acostumada a ver na Itália,  quando eu ia ao supermercado, as ruas desertas. Aqui é como se tudo tivesse normal”, conta.


Nayara agora cumpre quarentena em casa e se comunica com brasileiros que ainda não conseguiram deixar a Itália. “Tem muita gente que sequer consegue se deslocar de uma cidade para outra”, afirma. Beatriz também se preocupa com os que ainda estão lá. « Estou de coração partido por quem ficou. Muita gente não tem condição de comprar passagem e estão sendo ignorados », relata.





Entre os que ficaram, está o casal de brasileiros Érico e Eliana Zini. Eles tentam ir embora da Itália desde o dia 17 de março, um dia após a cidade de Medicina, em Bolonha, onde estão, aderir ao lockdown (o mais rígido nível de controle de circulação). Por conta do fechamento das fronteiras, não conseguiram nem sair para ir ao aeroporto. Um voo no dia 20 de março  foi cancelado e um no dia 16 de abril também.


Hospedados na casa de um primo, veem a viagem programada para durar 51 dias se estender a quase três meses. Enquanto isso, as reservas de dinheiro vão acabando. “A gente tem um pouquinho de euro aqui só pra gente pegar um trem e tentar um voo. Com euro a R$ 6 está difícil”, lamenta Érico. O fim do lockdown está previsto para 3 de maio. Beatriz, Nayara, Érico e Eliana participaram do vídeo divulgado no início do mês em que brasileiros retidos na Itália fazem um pedido de socorro para voltar para casa. Julia Lima, de 31 anos, que também aparece no vídeo, ainda está no sul do país e comprou nova passagem de retorno, que já foi cancelada duas vezes.



Itamaraty



O Itamaraty afirmou que “todos os brasileiros retidos no exterior estão sendo considerados”. Em resposta à reportagem, o órgão declarou: “continuamos trabalhando, sem interrupção, para que aqueles que ainda estão enfrentando problemas em seu retorno possam se juntar aos 15.832 nacionais que foram repatriados, com algum tipo de apoio das embaixadas e consulados, desde 21/3”.


A prioridade é os brasileiros possam ser acomodados em voos comerciais que ainda estão em operação. “Na impossibilidade da acomodação em voos comerciais são analisados individualmente para viabilização de outras soluções que permitam lograr o objetivo da repatriação. Informamos que os brasileiros que se encontrarem em situação de dificuldade podem solicitar ajuda ao consulado ou à embaixada em sua região, os quais buscarão, de acordo com as limitações legais existentes, dar apoio aos nacionais em situação de hipossuficiência financeira”. Brasileiros retidos na Europa podem entrar em contato pelo telefone: + 55 (61) 9826 00 787. Mais detalhes sobre o Grupo Consular de Crise que oferece assistência a viajantes brasileiros afetados pela pandemia podem ser encontradas aqui.



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