Biden e Trump apostam na substituição de importações, tentada no Brasil nos anos 1960 – Notícias



Durante décadas, os Estados Unidos lançaram as bases das políticas econômicas que o resto do mundo acabaria, mais cedo ou mais tarde, por seguir.


Em 1989, nascia na capital americana o chamado Consenso de Washington, que tinha por premissa que a economia capitalista de qualquer país só cresceria se garantisse a adoção de medidas como redução de gastos públicos, abertura comercial, desregulamentação e câmbio flutuante.


E embora tenha sido atualizado e revisitado, é esse compêndio de regras que norteia até hoje, por exemplo, a avaliação do FMI (Fundo Monetário Internacional) sobre as mais diversas economias ao redor do mundo.


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As eleições americanas de 2020, no entanto, mostram que, no berço dessas ideias, elas foram abandonadas. Ao menos é o que demonstram os programas econômicos dos dois presidenciáveis — o democrata Joe Biden e o republicano Donald Trump — que concorrem à Casa Branca na terça-feira (3).


Mais do que isso, ambos trouxeram de volta para o centro de seus planos econômicos uma ideia que foi a tônica dos governos do Brasil, e da América Latina, nas décadas de 1960 e 1970 – e que recebia também o endosso da esquerda — a chamada política de substituição de importações.



O que é substituição de importações?


Substituição de importações é nome que se dá a um conjunto de medidas econômicas que tentavam levar os países, como o Brasil, a produzir os bens e produtos que os cidadãos queriam comprar, em vez de importá-los.


O país fazia isso por meio de intervenção pesada do Estado na economia: o governo sobretaxava os produtos estrangeiros — para torná-los mais caros e menos atraentes para os brasileiros — ao mesmo tempo em que subsidiava a atividade de vários setores nacionais e chegava a investir dinheiro público em áreas consideradas estratégicas e fundamentais para economia e segurança nacional.



Por trás desse ferramental, estava a crença de políticos, economistas e intelectuais brasileiros na chamada teoria da dependência: a ideia de que o Brasil jamais deixaria de ser um país subdesenvolvido se apenas vendesse sua produção agropecuária ao mundo e consumisse de volta produtos industrializados.


O país precisaria aumentar seu parque industrial para ter tanto produtos com maior valor agregado para exportar quanto empregos mais bem remunerados do que os rurais. Esse seria o caminho pra superar a pobreza.


Só que deu errado. Com o passar do anos, o Estado viu seus gastos aumentarem cada vez mais, já que tinha que bancar os custos de atividades produtivas nas quais nem sempre o país era eficiente.


Além disso, o preço final das mercadorias para os brasileiros era muito mais caro, porque produzir no país era custoso e porque os produtos estrangeiros eram taxados para proteger a indústria nacional.


A situação gerava ao mesmo tempo inflação, que precisaria ser contida com altos juros, que aumentavam ainda mais alta a dívida pública do país, que se via diante da necessidade de gastar cada vez mais no seu papel de produtor de bens que custavam caro e eram ruins, e pressionavam a inflação, e assim sucessivamente.


Foi assim que o país desaguou na década de 1980 em hiperinflação e necessidade de empréstimos justamente do FMI, que forçou a adoção de medidas do Consenso de Washington.


No curto prazo, essas medidas resultaram na quebradeira de parte significativa da indústria nacional, agora sem o respaldo de medidas protecionistas. Mas, de alguma maneira, algumas medidas econômicas dessa vertente se mantém populares até hoje, como a isenção fiscal a certos setores em troca da manutenção de empregos.


O que Trump e Biden propõem?


De acordo com a economista Monica De Bolle, do Peterson Institute for International Economics, o que os dois candidatos americanos têm proposto agora é um receituário muito parecido com o aplicado no Brasil dos anos 1960.


« São as mesmas medidas que vimos na substituição de importações da América Latina », diz De Bolle. A diferença está no grau e nas motivações: os EUA não querem se industrializar, e sim reavivar parte de seu parque industrial hoje « zumbi ».


E não quer fazer isso para superar a pobreza, mas para não depender de parceiros internacionais em quem não confia, como a China.


Do lado do republicano, o plano não chega a ser uma novidade. Trump se elegeu em 2016 prometendo que sua ascensão à presidência seria « uma vitória do assalariado, do operário » e garantindo que faria uma reversão do processo de globalização da produção industrial, estimulada décadas antes pelo seu próprio partido, e com isso reabriria postos para os trabalhadores fabris.


Foi exatamente o que ele tentou fazer. Trump impôs tarifas para a importação de uma série de produtos. Seu governo instituiu imposto de 10% a cerca de US$ 200 bilhões em produtos da China, seu principal alvo.


Mas o Brasil não escapou dessas medidas protecionistas — o aço brasileiro tem sido sucessivamente taxado para proteger a ineficiente indústria siderúrgica americana e a carne bovina brasileira in natura ficou vetada do mercado dos EUA por quase toda a gestão Trump, alegadamente por motivos sanitários, mas em medida vista pelo setor brasileiro como protecionismo aos fazendeiros eleitores do republicano.


Ao renegociar acordos comerciais — como o novo tratado entre México, EUA e Canadá, conhecido pela sigla em inglês USMCA — Trump incluiu uma cláusula que dava preferência aos produtores americanos em compras feitas pelo governo dos EUA.


Com isso, forçou o retorno de parte da indústria automobilística do país, que tinha se deslocado para o México em busca de mão de obra mais barata para as fábricas.


E em seu último grande movimento na direção da substituição de importação, Trump anunciou que transformaria a falida empresa do ramo fotográfico, a Kodak, em uma produtora do medicamento paracetamol.


Como os EUA não têm um banco público para fomento de empresas nacionais, como o BNDES, o presidente alterou as autorizações de empréstimo da Agência Internacional de Financiamento do Desenvolvimento dos EUA, normalmente destinada a bancar projetos de infraestrutura em países em desenvolvimento, para financiar a empreitada doméstica da Kodak e conceder US$ 765 milhões em dinheiro público para o início da produção.


Com isso, abriria 350 postos de trabalho em Rochester (NY), de onde os últimos empregados da Kodak foram demitidos em 2017. E produziria cada comprimido a um custo quase 30% mais alto do que os disponíveis hoje nas gôndolas de farmácia americanas, oriundos de China e Índia.


Trump e os Republicanos não estão sozinhos nessa ideia. Em seu programa de governo, Biden anunciou a intenção de estimular na população o comportamento « Buy American », ou « compre produtos americanos ».


Isso seria feito por meio da injeção de dinheiro público na economia: Biden prometeu um aumento de US$ 400 bilhões em quatro anos nas compras governamentais de bens e serviços dos EUA, além de US$ 300 bilhões em novas pesquisas e desenvolvimento em questões de tecnologia e na indústria dos EUA.


Biden ainda prometeu « trazer de volta cadeias de suprimento críticas para a América para que não dependamos da China ou de qualquer outro país para a produção de bens essenciais em uma crise ». O plano, de acordo com a campanha, criaria pelo menos 5 milhões de empregos em fábricas ao redor do país.


Em julho passado, Douglas Irwin, pesquisador do Peterson Institute for International Economics (PIIE), think tank em que surgiu o consenso de Washington, notou em um artigo que as políticas de substituição de importação estão fazendo um « indesejável retorno ».


« Até mesmo os Estados Unidos procuram promover a manufatura doméstica e excluir as importações do mercado. O governo Trump tem tomado medidas para ‘relançar’ a produção de automóveis, semicondutores e outros bens manufaturados para impulsionar a produção americana e criar empregos na indústria », escreveu Irwin.


Por que Washington abandonou o Consenso e abraçou o protecionismo?


De acordo com De Bolle, se na América Latina dos anos 1960, a motivação para adoção da substituição de importação era a economia, nos Estados Unidos de hoje esse movimento é político.


Promovido pelo republicano Ronald Reagan nos anos 1980, o Consenso de Washington seria plenamente incorporado também pelos democratas. O próprio Biden defendeu entusiasticamente aspectos da globalização que levaram para a América Latina e para Ásia partes do processo industrial que antes aconteciam em fábricas no chamado cinturão da ferrugem, dos quais fazem parte estados como Pensilvânia, Wisconsin, Michigan e Illinois.


Ao longo de décadas, o processo foi gerando uma massa de ex-operários sem qualificação para arranjar novos empregos bem remunerados e cujas opções de trabalho os jogavam para uma classe social abaixo do que se acostumaram a ter.


Eram em sua maioria homens brancos que passaram boa parte da vida votando nos democratas — muito presentes nos sindicatos — mas que se viam abandonados pela política econômica de governos como o de Bill Clinton. Na prática, nenhum político lhes prometia o eles desejavam — ter seus empregos nas fábricas de volta — até o surgimento de Donald Trump em 2016.


O eco que as palavras de Trump produziram nesse grupo explica como, em 2016, ele venceu Michigan, após quase 30 anos sem vitória de um presidenciável republicano no Estado, o Wisconsin, que não gerava vitória republicana em 32 anos e a Pensilvânia, que votara democrata nos 20 anos anteriores.


Em quatro anos, os números mostram que os empregos fabris não voltaram a essas regiões. « Nem iam voltar. Esse segmento industrial já morreu há muito tempo. O que temos é o discurso político, um grande jogo de cena que funciona com o eleitor a curto prazo », afirma De Bolle.


Prova de como o reposicionamento de Trump em relação à economia gerou impactos consistentes no eleitorado é o fato de que a economia é o único tópico em que ele passou boa parte da corrida eleitoral com índices melhores do que os de Biden – hoje, ambos então empatados nesse quesito.


« A pandemia também deu força a esse nacionalismo na economia », afirma De Bolle.


Ela se refere ao fato de que os EUA enfrentaram desabastecimento de material básico como máscaras e paracetamol durante a pandemia. Isso porque as importações do país acabaram interrompidas.


« É verdade que o pêndulo pós-covid se moveu para uma aceitação de um grau maior da intervenção estatal na economia », afirma o economista Otaviano Canuto, ex-vice-presidente do Banco Mundial.


O momento vivido pelo mundo e a necessidade de disputar os eleitores nesses estados-chave explicam para os dois economistas o rumo que os programas econômicos de Biden e Trump tomaram.


Mas os dois economistas são céticos sobre quão longe o republicano e o democrata estariam dispostos a levar essa agenda de substituição de importação em um próximo governo.


« Medidas como a guerra comercial com a China feriram a economia americana. Acho que nem Trump se repetiria num segundo mandato. Não vejo um neodesenvolvimento americano. Não dá pra submeter completamente a lógica do mercado dessa maneira », diz Canuto.


Faça o que eu digo, não faça o que eu faço


Tanto para De Bolle quanto para Canuto, o maior risco dessas medidas econômicas de Trump e Biden está menos no que pode acontecer com a economia americana e mais na sinalização que isso passa para governos ao redor do mundo.


Em seu artigo, Irwin nota que países africanos e asiáticos têm flertado coma agenda de substituição de importações. É muito improvável, segundo o pesquisador, que o resultado para eles possa ser melhor do que o que aconteceu no Brasil.


« É preocupante porque se os EUA adotam isso, pode virar uma onda, em um momento em que precisamos ainda mais desses instrumentos do Consenso de Washington », diz Canuto, em referência à recessão global provocada pela pandemia de covid-19.


Segundo ele, os americanos podem adotar medidas de substituição de importações sem acabar em fiasco justamente porque são os americanos.


« Eles têm uma enorme dívida pública e mesmo assim os títulos da dívida que emitem são demandados pelo mundo inteiro, mesmo que paguem uma miséria (em juros). Os fundos internacionais fazem reserva de liquidez com a dívida americana. Então não dá pra ignorar esse contexto e achar que você pode fazer isso no Brasil », diz Canuto.


De Bolle concorda. « Se em Washington o Consenso de Washington saiu de moda, ele segue valendo no FMI, no Banco Mundial e pro resto do mundo. »



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